O CENTÉSIMO MACACO 

Era uma vez...

Havia um arquipélago no Pacífico povoado apenas por macacos. Eles se alimentavam de raízes que tiravam da terra. Um dia, não se sabe porque, um desses macacos lavou as raízes antes de comer. Os outros o observaram, intrigados, e começaram a imitá-lo. Quando o centésimo macaco lavou a sua raiz, todos os macacos das outras ilhas começaram a lavar suas raízes antes de comer. E entre as ilhas não havia nenhuma comunicação aparente. 

Essa história exemplifica uma teoria criada pelo fisiologista inglês Rupert Sheldrake, denominada teoria dos campos morfogenéticos. Ela diz que todo átomo, molécula, célula ou organismo que existe gera um campo organizador invisível e ainda não detectável por qualquer instrumento, que afeta todas as unidades desse tipo. Assim, sempre que um membro de uma espécie aprende um comportamento, e esse comportamento é repetido vezes suficiente, o tal campo é modificado e a modificação afeta a espécie por inteiro, mesmo que não haja formas convencionais de contato entre seus membros. Isso explica porque todos os macacos do arquipélago de repente começaram a lavar suas raízes, sem que houvesse comunicação entre as ilhas. 

Se essa teoria for comprovada, as suas implicações são absolutamente fantásticas. Podemos pensar que, se repetirmos determinados comportamentos que consideramos importantes, como atitudes de preservação do meio ambiente, por exemplo, por um número suficiente de vezes, e se a quantidade de pessoas que assim procederem atingirem uma certa massa crítica, esse comportamento poderá ser desencadeado na população como um todo. 

O inverso também é verdadeiro. Comportamentos indesejáveis, violentos, anti-sociais, podem ser abolidos se as pessoas deixarem de praticá-los. Ou podem contaminar toda a espécie, se um número razoável de indivíduos insistirem na sua prática. Isso nos remete a uma coisa simples, porém fundamental: a melhor forma de modificar o mundo, e as outras pessoas é modificar a nós mesmos. 

Com a mudança do nosso comportamento e assumindo as atitudes que julgamos corretas e que queremos que sejam praticadas pelos outros estaremos contaminando quem nos vê, pelo exemplo, e quem não nos vê, e que está distante e sem comunicação conosco, pela ressonância que se estabelece entre o nosso campo morfogenético e o de todos os indivíduos semelhantes a nós. 

Há uns dois ou três anos, esteve aqui em Natal um ator global, desses bonitos, jovens e famosos, e aceitou um convite nosso para dar uma oficina de teatro, num dos edifícios do campus universitário da UFRN. No dia do curso fomos para lá e quando estacionamos o carro, ele desceu e foi logo apanhando um copo de papel amassado que estava no chão. 

E ao longo do caminho do estacionamento para o prédio, ele foi apanhando todo o lixo que encontrou pela frente. Sem dizer nada sobre aquilo que estava fazendo, conversando sobre teatro e outros assuntos, continuou apanhando o lixo e juntando num saco de plástico usado que também apanhou do chão. E quando chegamos no prédio, ele olhou em volta, procurou uma lixeira e depositou o que tinha recolhido. 

E não falou nenhuma palavra sobre isso. Não disse: "- Precisamos preservar a Natureza!" ou "- A poluição está atingindo níveis incontroláveis!" ou " - Precisamos limpar o Planeta!". Não disse nenhuma dessas frases bombásticas e que não fazem efeito se não forem acompanhadas da ação. 

O que ele fez foi somente a parte dele. Fez o que achava certo sem esperar que alguém fizesse primeiro, ou que todos fizessem também. Sem discurso ecológico, sem proselitismo, sem querer convencer ninguém de nada. Fez, e pronto. E valeu. 


Início

 

 

[email protected]